Fui caminhando pela rua rua solitária até chegar ao ponto de ônibus. Chegando a esquina, avisto seu Oscar, homem de meio século de vida. Homem alto, robusto e aparentemente gozava de muito boa saúde.
Como todos os dias, ele me olhou por cima dos ombros. Eu, por minha vez, lhe presenteei com um feliz "Bom dia".
O Sr Oscar costumava dar denominações muito simpáticas a portadores de deficiencia fisica. Uma delas era "aleijado".
E costumo ir ao meu trabalho de ônibus. Costumo subir os degraus sem precisar do constante apoio dos passageiros e motoristas. E o Seu Oscar sempre observava á tudo desconfiado e curioso. Para ele pessoas como eu, não deveriam sair de casa. A única dificuldade que sinto na cidade onde moro atualmente, é a má educação das pessoas em não cederem a cadeira da frente para que eu possa me sentar, ou o motorista parar muito distante do ponto, mas, todo o resto tiro de letra.
Durante vários dias fiquei demasiada preucupada, pois não havia mais avistado o Sr Oscar. Por onde ele andava? Estaria doente?
Um certo dia, cumprindo minha rotina diária, avistei ao longe, o Sr Oscar. Percebí então, que ele estava sentado a uma cadeira de rodas.
Me aproximei vagarosamente de sua calçada, pedí licença lhe cumprimentando com o costumeiro bom dia, e lhe perguntei se estava tudo bem e se ele precisava de algo.
percebí que o semblante de seu Oscar se tornara mais tenue. Ele ensaiou um sorriso nos lábios e disse:
- É moça. Por tantas vezes desprezei sua pessoa e agora me encontro em situação pior que a sua. Então? Não irá rir?Eu respondí:
-Imagina Seu Oscar. Primeiro lugar o senhor não desprezou minha pessoa. O senhor só não quis responder o meu cumprimento, não retribuiu o bom dia que lhe desejei todas as manhãs, só isso. Bom dia desejos a todos independente de eu conhecer a pessoa ou não. Sabe aquele dito popular "fazer o bem sem olhar a quem"? É um princípio que tenho; Segundo lugar não vejo motivos para rir. O senhor está na mesma situação em que muitas pessoas estão, seja por acidente ou por uma enfermidade, isso não vem ao caso. Isso não é nenhuma desgraça.
-Como não!? - Retrucou Seu Oscar. - Após a queda que sofrí fraturei uma vétebra. Não enxerga que me tornei um aleijado?
-De forma alguma Seu Oscar! O senhor tem uma limitação fisica, o que não o impede de nada. é uma questão de adaptação. Todos nós temos algum tipo de limitação. Seja um problema fisico, visual, cardiaco, neurologico, bilógico, não importa... Devemos ver nisso a oportunidade de avaliarmos nossas falhas, um novo começo.
-Não vejo como alguém pode recomeçar algo nesse estado...
- Seu Oscar no momento em que o senhor passa a aceitar-se, é natural que as pessoas lhe aceitem também, porque percebem que o senhor se impõe mesmo diante de suas limitações.
Seu Oscar calou-se por alguns instantes, ergueu seus olhos à mim e disse:
-É, acho que tem razão. Eu sempre ahei ter toda a experiencia do mundo, agora sei que não sei nada. Me responda como consegue ter forças e disposição para enfrentar o dia a dia com a capacidade fisica tão limitada?
Sorrindo, respondí:
-Seu Oscar, o que para uns é o limite, para outros é apenas o começo.
ADRIANA AZEVEDO

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